WEB SÉRIE DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA: MARXISMO PARTE 2

Diante de um cenário tão intenso da história, Dr Rômulo Félix consegue  nos apresentar através da sua argumentação  o marxismo e seus desdobramentos  na perspectiva histórica fundamentada no Magistério da Igreja.

A TEORIA MARXISTA OU DOUTRINA MARXISTA

Como vimos no texto sobre liberalismo, 1 as filosofias modernas progrediram num caminho de diluição da verdade, retirando Deus como fundamento da verdade e colocando o homem no lugar como o único detentor da definição do que é a verdade através de sua razão e essa sem a fé. Tal caminho diluiu a verdade do além, ou seja, da realidade da transcendência. Karl Marx, partindo do princípio que a verdade do além foi superada pelas filosofias modernas e Deus definido como inexistente, decidiu tratar de estabelecer a verdade de aquém, ou seja, apenas da imanência do homem, sendo ela considerada a única realidade verdadeiramente existente. A crítica do Céu transforma-se na crítica da terra, a crítica da teologia na crítica da política. O progresso rumo ao melhor, rumo ao mundo definitivamente bom, já não vem simplesmente da ciência e muito menos de Deus, mas da política, de uma política pensada cientificamente, que sabe reconhecer a estrutura da história e da sociedade, indicando assim a estrada da revolução, da mudança de todas as coisas e, com o partido comunista, nascido no seu manifesto comunista de 1848, iniciou concretamente seus planos de um “progresso” definitivo. 2

O quem vem a ser a teoria ou doutrina de Karl Marx?

Tomando a explicação feita pelo Papa Pio XI na sua Encíclica Divinis redemptoris, a doutrina marxista funda-se de fato nos princípios do materialismo chamado dialético e histórico, ensinado por Karl Marx. Assim afirmou o Papa sobre o marxismo: “Essa doutrina proclama que não há mais que uma só realidade universal, a matéria, formada por forças cegas e ocultas, que, através da sua evolução natural, se vai transformando em planta, em animal, em homem. Do mesmo modo, a sociedade humana, dizem, não é outra coisa mais do que uma aparência ou forma da matéria, que vai evolucionando, como fica dito, e por uma necessidade inelutável e um perpétuo conflito de forças, vai pendendo para a síntese final: uma sociedade sem classes. É, pois, evidente que neste sistema não há lugar sequer para a ideia de Deus; é evidente que entre espírito e matéria, entre alma e corpo não há diferença alguma; que a alma não sobrevive depois da morte, nem há outra vida depois desta. Além disso, os comunistas, insistindo no método dialético do seu materialismo, pretendem que o conflito, a que acima Nos referimos, o qual levará a natureza à síntese final, pode ser acelerado pelos homens. É por isso que se esforçam por tornarem mais agudos os antagonismos que surgem entre as várias classes, da sociedade, porfiando porque a luta de classes, tão cheia, infelizmente, de ódios e de ruínas, tome o aspecto de uma guerra santa em prol do progresso da humanidade; e até mesmo, porque todas as barreiras que se opõem a essas sistemáticas violências, sejam completamente destruídas, como inimigas do gênero humano.” 3

O marxismo, pela sua própria base teórica, se apresenta de forma diferente em várias circunstâncias, mas podemos encontrar alguns elementos fundamentais do marxismo que sempre estão presentes em todas as suas apresentações, das mais radicais às mais moderadas. São elas: o materialismo dialético e histórico e a luta de classes, conforme a afirmação do Papa Pio XI acima citada.

O materialismo dialético e histórico: se resume em três ideias essenciais: dialética, alienação e trabalho, sendo o elemento dialético a chave de todo o resto.

  • Dialética: o materialismo dialético constitui a cosmovisão marxista; afirma que a realidade toda é apenas matéria. Essa matéria é eterna, infinita, automotriz, ou seja, move-se a si mesmo de maneira dialética, quer dizer, passando de um extremo ao outro, da afirmação à negação, do ser ao não ser, do inanimado ao vivente, do irracional ao racional. Por meio de tal teoria, Marx quis demonstrar que é o choque de oposições que faz a história avançar e que, sem essas oposições, a história estagna e assim, justificado em tal teoria, ele defendeu a tese que a sociedade sem classes, considerada a sociedade ideal, só poderia ser alcançada na oposição ou conflito de classes sociais. 4 O caro leitor deve ter tido muita dificuldade de compreender essa teoria da dialética e é justo que a tenha, já que tal teoria é totalmente incoerente e desprovido de verdade.
  • Alienação: para Marx, toda relação de dependência é uma alienação, sem distinguir a justa, da injusta, sendo assim, toda e qualquer dependência é tida como uma alienação, mesmo a dependência dos filhos aos pais, dos empregados aos patrões e dos fiéis à Igreja.
    Considera cinco tipos de alienação: 4
    • Econômica: centrada na propriedade;
    • Social: expressa pela ideia de classe social;
    • Política: manifestada pelo Estado;
    • Ideológica: dada pela filosofia;
    • Religiosa: centrada no conceito de Deus.
  • Trabalho: em virtude da dialética, o homem não tem uma essência ou natureza estável, mas transforma-se ou cria-se a si mesmo e o instrumento de tal transformação é o trabalho. O homem alienado, dependente, vê-se despojado do que produz, que passa para as mãos do empresário com o nome de mais-valia. 4

A luta de classes: uma característica fundamental do marxismo é a defesa da luta de classes como único meio de se alcançar a sociedade sem classes, meta de sociedade ideal. Tal teoria é fundamentada na dialética histórica que, como dito acima, necessita do conflito de opostos para fazer a história progredir, assim sendo, a sociedade sem classes só pode ser alcançada se as classes opostas lutarem umas contra as outras, fazendo a história progredir até a meta final onde não haverá mais classes sociais na sociedade.

De início, o marxismo reconhecia apenas duas classes que deveriam participar dessa luta, a classes dos ricos e dos pobres ou patrões e proletários, mas com o avançar do marxismo e com as modificações nele inseridas, percebeu-se a necessidade de que a oposição de classes fosse generalizada e assim, o que eram duas classes em luta, passaram a ser inúmeras: mulheres contra homens, negros contra brancos, filhos contra pais e tantas outras lutas de classes que hoje podemos encontrar no seio da sociedade hodierna.

O papa Leão XIII já previa, no final do século XIX, quando ainda as classes colocadas em oposição eram apenas a dos pobres e ricos, as graves consequências para o tecido social dessas lutas e assim afirmou: a luta de classes é uma “aberração tal, que é necessário colocar a verdade numa doutrina contrariamente oposta, porque, assim como no corpo humano os membros, apesar da sua diversidade, se adaptam maravilhosamente uns aos outros, de modo que formam um todo exatamente proporcionado e que se poderá chamar simétrico, assim também, na sociedade, as duas classes (ricos e pobres) estão destinadas pela natureza a unirem-se harmoniosamente e a conservarem-se mutuamente em perfeito equilíbrio. Elas têm imperiosa necessidade uma da outra: não pode haver capital sem trabalho, nem trabalho sem capital. A concórdia traz consigo a ordem e a beleza; ao contrário, dum conflito perpétuo só podem resultar confusão e lutas selvagens.” 5 O que vale para duas classes, vale para as outras tantas classes sociais.

Sobre a doutrina marxista, podemos concluir que é radicalmente ateia, mesmo quando se apresenta defendendo ideias religiosas, pois, segundo essa doutrina, não há diferença entre matéria e espírito, alma e corpo e tampouco há uma vida futura para alma após a morte. A transcendência não existe, existe apenas a matéria e o temporal. Essa doutrina destrói o conceito de pessoa, sua liberdade e dignidade, ao eliminar o princípio espiritual da conduta moral e tudo quanto se oponha ao instinto cego. A pessoa humana perde seu caráter espiritual e sagrado, o matrimônio e a família passam a ser instituições puramente convencionais, ignoram a dignidade do amor humano, negam-se a estabilidade e indissolubilidade do matrimônio, bem como do direito dos pais educarem seus filhos e sobre o pretexto de emancipação da mulher, esta é subtraída do lar lançada no mercado de trabalho, ignorando a sua dignidade e vocação próprias de sua feminilidade. 4 Não foi à toa que o Papa Pio XI, em sua Encíclica Divinis redemptoris, definiu o comunismo como intrinsecamente perverso, ou seja, intrinsecamente mal, e de não ser admissível que em nenhum campo recebam a colaboração de qualquer católico, como o mesmo Papa afirmou na referida Encíclica. 6

Algo de extremamente perigoso na ideologia marxista é sua característica “camaleônica”, ou seja, sua capacidade de se adaptar às ideologias, circunstâncias, situações e tempos. Por exemplo, essa ideologia ateia pode muito bem se juntar à uma religião, mesmo que, intrinsicamente, ela a combata, como é o caso da teologia da libertação de análise marxista que é uma tentativa desastrosa de união entre marxismo e Fé Católica e que foi condenada pela Santa Igreja Católica no Documento da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé intitulado Libertatis nuntiuns. 7 Pode também se juntar ao capitalismo liberal, mesmo que em teoria ela se apresente como uma alternativa oposta ao liberalismo, como ocorre com a social-democracia ou keynesianismo. Ela pode ainda combater uma determinada ideia ou comportamento num período de tempo e, se convém à “causa”, eles podem se unir à essa mesma ideia ou comportamento que antes combatiam, pois a ideologia marxista leva até as últimas consequências o maquiavelismo do “fim justifica os meios”.

A Santa Igreja Católica também alertou para esse “camaleonismo” do marxismo, em especial na Carta Apostólica Octogesima adveniens do Papa São Paulo VI. Nele o Papa Santo alerta para uma evolução histórica do marxismo desde um marxismo radical e violento, para uma forma mais mitigada ou até uma forma que se apresente como parceira do cristianismo na luta contra as injustiças sociais, mas o Papa adverte, nessa Carta Apostólica, que “se nesta gama do marxismo, tal como ele é vivido concretamente, se podem distinguir estes diversos aspectos e as questões que eles levantam aos cristãos para a reflexão e para a ação, seria ilusório e perigoso mesmo, chegar-se ao ponto de esquecer a ligação íntima que os une radicalmente, e de aceitar os elementos de análise marxista sem reconhecer as suas relações com a ideologia, e ainda, de entrar na prática da luta de classes e da sua interpretação marxista, esquecendo-se de atender ao tipo de sociedade totalitária e violenta, a que conduz este processo.” 8 O que o Papa afirmou está em conformidade com seus antecessores, como o Papa Pio XI que, como dito anteriormente, definiu o comunismo como intrinsecamente mal 6, pois sempre o princípio e o fim do marxismo será mal, mesmo que no permeio ele se apresente com uma “boa aparência”. Essa definição se manteve nos sucessores e um luminoso exemplo é a seguinte afirmação do Papa São João XXIII: “Entre comunismo e cristianismo, o pontífice declara novamente que a oposição é radical, e acrescenta não se poder admitir de maneira alguma que os católicos adiram ao socialismo moderado: quer porque ele foi construído sobre uma concepção da vida fechada no temporal, com o bem-estar como objetivo supremo da sociedade; quer porque fomenta uma organização social da vida comum tendo a produção como fim único, não sem grave prejuízo da liberdade humana; quer ainda porque lhe falta todo o princípio de verdadeira autoridade social.” 9

Salve Maria e Viva Cristo Rei!

Rômulo Felix do Rosario, casado, pai de 5 filhos, sendo 3 no Céu, médico pediatra, professor no Centro Anchieta (www.centroanchieta.org), uma iniciativa de fiéis católicos que visa promover a cultura católica nos mais variados âmbitos da vida do homem tendo como finalidade a busca da santidade. Coordenador do Projeto Social Vida, um grupo pró-vida da paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, área pastoral de Vila Velha e Ministro Extraordinário da Distribuição da Sagrada Comunhão Eucaristia na mesma paróquia.

DR Rômulo Félix

Referências:

  1. https://www.bompastorpraia.com.br/web-serie-doutrina-social-da-igreja-liberalismo
  2. Papa Bento XVI, Encíclica Spe salvi, nº 16 – 23
  3. Papa Pio XI, Encíclica Divinis redemptoris, nº 9.
  4. A Ordem Natural, Carlos Alberto Sacheri, Edições Cristo Rei, 1 ed., p. 76-78.
  5. Papa Leão XIII, Encíclica Rerum novarum, nº 9.
  6. Papa Pio XI, Encíclica Divinis redemptoris, nº 58.
  7. Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Libertatis nuntiuns, Introdução.
  8. Papa São Paulo VI, Carta Apostólica Octogesmia adveniens, nº 34.
  9. Papa São João XXIII, Encíclica Mater et magistra, nº 34.