WEB SÉRIE DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA: LIBERALISMO PARTE 2

Nesse artigo DR Rômulo Félix relata a sequência de filosofias modernas e sua relação com magistério da Igreja.

Relembre artigo anterior: Liberalismo parte 01  

O Liberalismo como uma “Evolução” das Filosofias Modernas

A filosofia liberal é um fruto maduro do avançar das filosofias modernas onde progressivamente se afastaram da verdade. Ela possui suas raízes em filosofias condenadas pela Igreja em vários de seus documentos. Quero destacar aqui as principais filosofias modernas, bem como revoluções e ideologias frutos das mesmas, e que foram as causas das grandes “convulsões” sociais dos últimos cinco séculos:

  1. O nominalismo: formulado no século XIV pelo frade franciscano Guilherme de Ockham (1285 – 1347), negou que a inteligência humana pudesse ter acesso a verdades universais, estando o conhecimento humano limitado à apreensão das realidades sensíveis, ou seja, somente o indivíduo, na sua experiência pessoal, pode definir a verdade, que não é absoluta, mas relativa a experiência individual de cada pessoa. 1, 2 Tal corrente abriu o precedente filosófico de separar a razão e a fé e de considerar Deus inacessível à razão.
  2. A Renascença: iniciada no século XIV, por volta de 1350 e durou até o século XVI por volta de 1550. Esse movimento social, político e cultural instaurou uma “nova civilização” no lugar daquela que estava sendo construída pela Santa Igreja, 3 que havia suplantado a civilização pagã e iniciado uma era cristã com profundas e benéficas consequências na formação de uma sociedade humana mais virtuosa.
    A Renascença foi inspirada nos valores da Antiguidade Clássica e geradora de modificações estruturais na sociedade, influenciados por pensamentos do paganismo da era pré-cristã e que resultou na reformulação total da vida medieval, dando início à Idade Moderna. 4 Na prática, o Renascentismo foi um renascimento do paganismo, 3 ou seja, de uma virada da era cristã para uma era neopagã.
  3. O humanismo: iniciado no século XIV e dentro do contexto do Renascentismo, foi um movimento de glorificação do homem e da natureza humana em detrimento à Gloria de Deus. Podemos dizer que o humanismo, surgido no renascentismo, iniciou um processo de substituição de Deus, como o centro da história, pelo homem. Segundo esse pensamento, o homem, a obra mais perfeita do Criador, era capaz de compreender, modificar e até dominar a natureza, deixando de ser, com isso, um colaborador da Graça Divina para ser um controlador da mesma. Os humanistas buscavam interpretar o cristianismo utilizando escritos de autores pagãos da antiguidade, mas sem a devida subordinação à Tradição da Igreja. O humanismo se tornou referência para o surgimento das filosofias modernas, especialmente para os filósofos iluministas do século XVIII. 4
  4. A revolução protestante ou protestantismo: iniciado em 1517 pelo monge agostiniano Martinho Lutero (1483 – 1546). Apesar de ser conhecida mais pelo termo “reforma” protestante, é fato evidente que esse termo não é o correto para conceituar o que ocorreu, já que Lutero renunciou a todos os princípios da fé católica com relação a Sagrada Escritura, a Tradição apostólica, o magistério do Papa e dos Concílios, o episcopado, que eram vividos desde o princípio do cristianismo e, nesse sentido, Lutero destruiu o conceito de desenvolvimento homogêneo da doutrina cristã, tal como explicado na Idade Média, e chegou a negar os sacramentos como sinais eficazes da Graça neles contida, substituindo essa eficácia objetiva por uma fé subjetiva. Tão radical mudança não se configura uma reforma, mas sim uma revolução. 5
    Lutero é um fruto maduro do nominalismo de Ockham, mas foi além ao estabelecer uma direta oposição entre a fé e a razão defendendo a tese de que a razão, debilitada pelo pecado original, não é capaz de conhecer as coisas da fé. 6 
    As três “solas”, que são o núcleo básico do luteranismo e de todo o protestantismo, são consequências claras tanto do nominalismo, quanto do humanismo da renascença. O binômio “justificação pela fé” (sola fide) e “passividade da vontade humana” (sola gratia) são como que a ressonância teórica de um conflito entre a razão e as verdades da fé. Ele acreditou poder resolver esse conflito pela crucificação da razão humana tornando a filosofia não apenas um empreendimento inútil, mas sobretudo pernicioso e perigoso; a única via aberta é a theologia crucis, por meio da qual o homem, consciente da essencial corrupção de sua natureza e, portanto, de sua incapacidade de realizar obras boas e meritórias, descobre na Cruz a misericórdia de Cristo, em Quem fiducialmente confia e por cujos méritos se vê livre da imputação dos próprios pecados. 6 Dessa forma, Lutero separa a teologia da filosofia e a partir desse momento, a teologia se viu reduzida à Economia, pois, sendo o seu objeto próprio apenas o homem réu de pecado em sua relação com a Cruz redentora de Nosso Senhor, Deus é espoliado de sua majestade celeste e se torna um Deus ad hominem, isto é, todo voltado a encobrir, com “o manto dos méritos do Redentor”, os nossos pecados, sem que possamos nunca despojar-nos do homem velho e revestir-nos de Cristo, assim sendo, Lutero negava que o homem pudesse alcançar a santidade. 6 Já na “sola scriptura”, que define que Deus se Revela ao homem unicamente pelas Escrituras, cabe ao homem, no “poder do Espírito Santo”, a sua correta intepretação, deixando-a ao arbítrio do indivíduo. Tal “sola” coloca o homem, individualmente falando, no centro da Revelação Divina ao ser ele o porta voz de Deus, por meio da Bíblia e, como consequência, ocorre a subjetivação da vida religiosa em que a Verdade contida nas Sagradas Escrituras fica ao arbítrio do indivíduo, ao serem submetidas às interpretações pessoais e não mais à autoridade de um Colégio Apostólico a quem Deus deu sua devida autoridade e a quem Ele prometeu a Sua assistência. Essa crise na teologia, iniciada por Lutero, teve como consequência uma crise na filosofia, que a partir desse momento se separa de sua necessária relação com a teologia e se volta unicamente para a razão e o que se seguiu foi o surgimento de filosofias errôneas que, separadas da fé, se tornaram base para o nascimento das ideologias.
    Essa revolução teve como consequências mais perigosas o igualitarismo que se manifesta através da negação protestante da autoridade do Santo Padre, e do Magistério a ele subordinado, e da negação da diferença essencial e mística entre ministros ordenados e leigos e o liberalismo moral que se manifesta através do princípio protestante da livre interpretação da Sagrada Escritura que abriu o precedente para interpretações mais liberais quanto à moral. 7
  5. O racionalismo: formulado no século XVI, tendo como maior responsável o filósofo Renée Descartes (1596-1650), exaltou a razão humana ao absoluto, onde a mesma, sem relação alguma com Deus, é o único árbitro do verdadeiro e do falso, do bem e do mal, é a sua própria lei e suficiente para alcançar o bem dos homens e dos povos. 8
  6. O iluminismo: formulado no século XVIII e teve o filósofo Immanuel Kant (1724 – 1804) como um dos grandes representantes. Essa corrente filosófica deu lugar ao livre-pensamento a à concepção do homem como absolutamente autônomo quanto à moral. 1 Essa autonomia é fruto da oposição entre fé e razão que exaltou a luz da razão contra a luz sobrenatural da fé, entendida como algo inacessível à razão e por isso relegada a algo e ser vivido no privado, já que, segundo essa corrente filosófica, Deus é inacessível a luz natural da razão. Só admite que se conhece “as coisas tal como são conhecidas”, ou seja, como são interpretadas pela mente, mas não “as coisas em si mesmas”, ou seja, como elas são de fato baseado numa lei superior universal, já que rejeitam o conhecimento abstrato dos universais em favor simplesmente da experiência sensível, em outras palavras, eles trocaram o conhecimento intelectual e espiritual por um semelhante ao dos animais.
  7. O naturalismo maçônico: filosofia com íntima ligação com o iluminismo e base doutrinária da maçonaria, 9 tendo nela sua maior fonte de dispersão na sociedade. Os naturalistas defendem a ideia de que a natureza humana e a razão humana deveriam em todas as coisas ser senhora e guia. Negam que qualquer coisa tenha sido ensinada por Deus e não permitem qualquer dogma de religião ou verdade que não possa ser entendida pela inteligência humana, nem qualquer mestre que deva ser acreditado por causa de sua autoridade. 10 Na política, os naturalistas “decretam que todos os homens tem o mesmo direito, e são em todos os aspectos da mesma e igual condição; que cada um é naturalmente livre; que nenhum tem o direito de comandar a outrem; que é um ato de violência requerer que homens obedeçam qualquer autoridade outra que aquela que é obtida deles mesmos. […] É sustentado também que o Estado deve ser sem Deus e que nas várias formas de religião não há razão pela qual uma devesse ter precedência sobre outra; e que todas elas devem ocupar o mesmo lugar.” 11
  8. Somado à essas correntes filosóficas, há o influxo do protestantismo calvinista que fomentou o espírito de acumulação de riquezas. 1
  9. A ideologia liberal: “crê exaltar a liberdade individual, subtraindo-a a toda a limitação, estimulando-a com a busca exclusiva do interesse e do poderio e considerando, por outro lado, as solidariedades sociais como consequências, mais ou menos automáticas, das iniciativas individuais e não já como um fim e um critério mais alto do valor e da organização social 12 e […] procura afirmar-se tanto em nome da eficiência econômica, como para defender o indivíduo contra a ação cada vez mais invasora das organizações, como, ainda, contra as tendências totalitárias dos poderes políticos […], mas, os cristãos que se comprometem nesta linha não terão também eles tendência para idealizar o liberalismo, o qual se torna então uma proclamação em favor da liberdade? Eles quereriam um modelo novo, mais adaptado às condições atuais, esquecendo facilmente de que, nas suas próprias raízes, o liberalismo filosófico é uma afirmação errônea da autonomia do indivíduo, na sua atividade, nas suas motivações e no exercício da sua liberdade.” 13
  10. Revolução Francesa: ocorreu entre1789 e 1799 e foi fruto direto das filosofias acima citadas e, em especial, do iluminismo e da ideologia liberal. Contou com uma forte oposição à Igreja levando ao martírio milhares de católicos. 14 Se tornou o maior ponto de difusão do liberalismo pelo mundo e teve como consequências mais perigosas o igualitarismo que se manifestou através do ódio à nobreza por parte do povo e o liberalismo moral que se manifesta na recusa da sujeição a Deus, através da vitória do ateísmo e do agnosticismo que se dá com a separação radical entre a Santa Igreja e o Estado, fruto da separação entre a fé e a razão. 7
  11. Ideologia marxista: é o ápice maléfico da progressão das filosofias modernas e será tradada com mais detalhes na próxima série de textos sobre o marxismo. 
  12. Revolução Marxista: foi iniciada na Revolução Bolchevique de 1917 na Rússia e teve como consequências mais perigosas o igualitarismo que se manifesta também nesta etapa através da negação explícita da existência de Deus na doutrina comunista de Marx e o liberalismo moral através de uma “onipotência do Estado” onde o mesmo ganha uma autoridade iníqua de atentar contra a lei natural e a Lei Divina. 7 Como disse mais acima, tratarei melhor do marxismo, bem como de suas revoluções, no próximo texto.

Ao conhecermos, mesmo que resumidamente, as correntes filosóficas do tempo moderno, podemos verificar que há uma “progressão” do pensamento filosófico até chegar à filosofia liberal e posteriormente na ideologia marxista. Não são correntes filosóficas independentes entre si, mas cada uma é como que a base teórica onde a corrente filosófica seguinte foi formulada, até chegar na filosofia liberal que também foi tomada como base para a ideologia marxista.

Uma característica dessa progressão filosófica é o progressivo afastamento da filosofia do seu mais supremo objeto: a Verdade. Tal afastamento da verdade é fruto da separação progressiva entre a razão e a fé e também na progressiva substituição de Deus pelo homem, como centro da história.

O Papa São Pio X, citando trechos do Concílio Vaticano I, condenou essas correntes filosóficas, resumidamente chamadas de “filosofias modernistas”, na sua Encíclica Pascendi dominici gregis: “O Concílio Vaticano I assim definiu: Se alguém disser que o Deus, único e verdadeiro, criador e Senhor nosso, por meio das coisas criadas não pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, seja anátema (De Revel. Cân. 1); e também: Se alguém disser que não é possível ou não convém que, por divina revelação, seja o homem instruído acerca de Deus e do culto que lhe é devido, seja anátema (Ibid. Cân. 2); e, finalmente: Se alguém disser que a divina revelação não pode tornar-se crível por manifestações externas, e que por isto os homens não devem ser movidos à fé senão exclusivamente pela interna experiência ou inspiração privada, seja anátema (De Fide, Cân. 3).” 15

As filosofias modernistas tiveram a pretensão de conhecerem melhor o homem pela luz da razão, prescindindo da fé, ou seja, prescindindo de Deus, e o que conseguiram foram desfigurar o conhecimento sobre o homem e de tudo que emana dele, como o seu ser religioso, social, político e econômico, afastando-o assim de sua própria natureza. A razão não pode prescindir da fé, pois “a fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade” 16 , seja a verdade sobre Deus, seja a verdade sobre o homem e tudo que emana do seu ser, seja a verdade sobre toda a criação.

No próximo texto irei tratar do liberalismo econômico, bem como de sua influência na sociedade e no Estado.

Salve Maria e Viva Cristo Rei!

Rômulo Felix do Rosario, casado, pai de 5 filhos, sendo 3 no Céu, médico pediatra, professor no Centro Anchieta (www.centroanchieta.org), uma iniciativa de fiéis católicos que visa promover a cultura católica nos mais variados âmbitos da vida do homem tendo como finalidade a busca da santidade. Coordenador do Projeto Social Vida, um grupo pró-vida da paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, área pastoral de Vila Velha e Ministro Extraordinário da Distribuição da Sagrada Comunhão Eucaristia na mesma paróquia.

Referencias:

  1. A Ordem Natural, Carlos Alberto Sacheri, Edições Cristo Rei, 1 ed., p. 67.
  2. DE WULF, Maurice. “Nominalism, Realism, Conceptualism”, in: The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company, 1911.
  3. NUNES, Ruy Afonso da Costa. História da Educação no Renascimento. São Paulo: EPU/EDUSP, 1980.
  4. https://www.todamateria.com.br/renascimento-caracteristicas-e-contexto-historico/
  5. https://padrepauloricardo.org/blog/reforma-nao-revolucao
  6. https://padrepauloricardo.org/aulas/martinho-lutero
  7. https://www.veritatis.com.br/descristianizacao-e-revolucao-anticrista/
  8. https://pt.scribd.com/document/191424320/CARTA-ENCICLICA-SYLLABUS-PAPA-PIO-IX
  9. http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19850223_declaration-masonic_articolo_po.html
  10. Papa Leão XIII, Encíclica Humana genus, n° 12.
  11. Papa Leão XIII, Encíclica Humana genus, n° 22.
  12. Papa São Paulo VI, Carta Apostólica Octogesima adveniens, n° 26.
  13. Papa São Paulo VI, Carta Apostólica Octogesima adveniens, n° 35.
  14. https://padrepauloricardo.org/blog/os-bastidores-espirituais-de-um-atentado
  15. Papa São Pio X, Encíclica Pascendi dominici gregis, 1ª parte, o modernista filósofo.
  16. Papa São João Paulo II, Encíclica Fides et Ratio, p. 1.