WEB SÉRIE DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA : LIBERALISMO PARTE 1

A filosofia do liberalismo é contra a concepção do homem pela doutrina católica nos afirma Dr Rômulo Félix.

Relembre artigo anterior: O princípio da solidariedade

Introdução

Terminado os textos sobre os princípios que norteiam a Doutrina Social da Igreja, passo agora a explicar as ideologias que se opõe à ela ao não respeitarem a unidade dos seus princípios ou até mesmo ao se oporem aos fundamentos da mesma.

Nessa primeira serie de quatro textos vou tratar da ideologia liberal ou liberalismo. Tido por muitos como apenas um modelo econômico e não uma ideologia, o liberalismo avançou com importante velocidade pelo mundo, mesmo entre os católicos, seduzindo até membros do clero, especialmente nos séculos XVIII e XIX, tendo na Revolução Francesa (1789 – 1799) o seu ponto de partida para uma rápida difusão pelo mundo. Hoje, tal filosofia, está enraizada na mente de muitos, sem que nem percebam, levando a crerem que certos princípios liberais são como que partes da lei natural, o que é um grave erro.

O liberalismo de fato é uma ideologia na medida em que se fundamenta numa concepção errônea do homem e, a partir dessa concepção equivocada, se formula princípios e sobre eles se constrói todo um modelo econômico, político e social, que veremos mais adiante. Quando se parte de princípios errados, é inevitável que se corrompa o fim, assim sendo, o liberalismo, partindo de tais princípios, é, inevitavelmente, um modelo corrompido e, ao ser implantado, torna-se corruptor de toda a sociedade.

Para efeito didático, vou dividir o liberalismo em cinco partes:

  • O liberalismo como filosofia;
  • O liberalismo como uma “evolução” das filosofias modernas;
  • O liberalismo econômico;
  • O liberalismo e a sociedade/Estado;
  • As relações entre moral X direito e entre a cultura X religião, no liberalismo.

É o liberalismo como filosofia que fundamenta tanto o liberalismo econômico, como a sua visão de Estado, bem como a construção de toda a sociedade, assim sendo, todos os erros do liberalismo podem encontrar suas raízes nessa filosofia liberal, na sua visão equivocada do homem e de tudo que emana dele, seja da sua sociabilidade, seja da sua religiosidade, com graves consequências na relação do homem com a lei moral.

O Liberalismo como Filosofia

É da essência do liberalismo exaltar a liberdade humana, em que ela é a essência mesma da pessoa, ignorando que os atos humanos são livres na medida em que supõe uma guia ou orientação da razão. 1

O liberalismo tem como fundamento o princípio do “bom selvagem” do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) em que se defende o erro de princípio de que o homem é naturalmente bom e justo, possuidor de uma liberdade absoluta, e que é a sociedade que o perverte na medida em que lhe impõe limites à sua liberdade. 2  Sendo então o homem bom pelo simples fato de ser homem, sem que a perfeição requeira educação, esforço ou decisão pessoal e sendo também a sociedade a causa de sua corrupção, tal filosofia defende a tese de que esse homem não pode sofrer nenhum tipo de limitação à sua liberdade provinda da sociedade, pois essa privação é a causa de sua corrupção. Consequentemente, o homem necessita de uma plena liberdade, não podendo ser submetido a nenhuma regulação ética que não provenha de sua própria autodeterminação, para que ele possa alcançar um progresso indefinido e necessário, tanto intelectual, quanto moral.1 Por essas razões, o Papa São Paulo VI afirmou que o liberalismo filosófico é uma afirmação errônea da autonomia do indivíduo, na sua atividade, nas suas motivações e no exercício da sua liberdade. 3

Esse princípio rousseauniano está em oposição ao princípio católico da dignidade humana, em que o homem é um ser criado bom a imagem e semelhança de Deus, mas que após o pecado original, carrega em sua natureza as marcas dessa queda, que são as concupiscências,  impulso do apetite sensível contrário aos ditames da razão humana, onde o homem é inclinado ao pecado. 4 Além disse, o homem, criatura que Deus amou de forma única, não foi abandonada às suas concupiscências após o pecado original, mas foi resgatado por Deus em Jesus Cristo, que assumiu a condição humana, menos o pecado, e remiu o homem com Seu Sangue Preciosíssimo e assim, na Graça de Deus, o homem pode ascender em virtudes até a perfeição, quando seu coração alcança a perfeita configuração ao Homem Perfeito, Cristo Senhor. 5 Assim sendo, o homem não é naturalmente bom e justo por conta do pecado original, mas pode vir a ser por obra de uma graça sobrenatural.

No próximo texto irei tratar do liberalismo como uma “evolução” das filosofias modernas e traçarei um breve resumo das filosofias modernas, das ideologias e das revoluções ocorridas no tempo moderno.

DR Rômulo Félix

Salve Maria e Viva Cristo Rei!

Rômulo Felix do Rosario, casado, pai de 5 filhos, sendo 3 no Céu, médico pediatra, professor no Centro Anchieta (www.centroanchieta.org), uma iniciativa de fiéis católicos que visa promover a cultura católica nos mais variados âmbitos da vida do homem tendo como finalidade a busca da santidade. Coordenador do Projeto Social Vida, um grupo pró-vida da paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, área pastoral de Vila Velha e Ministro Extraordinário da Distribuição da Sagrada Comunhão Eucaristia na mesma paróquia.

Referencias:

  1. A Ordem Natural, Carlos Alberto Sacheri, Edições Cristo Rei, 1 ed., p. 68. 
  2. https://www.infoescola.com/filosofia/a-filosofia-de-rousseau/
  3. Papa São Paulo VI, Carta Apostólica Octogesima adveniens, n° 35.
  4. CIC, cân. 2515.
  5. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nº 120 – 123.