Encenação do Encontro

Na última quarta-feira dia 31 de março, quarta-feira Santa, foi realizada em nossa Paróquia a encenação do encontro da Virgem Maria com o Seu Filho Jesus, pelos jovens de nossa Paróquia, seguida de um momento de reflexão com Padre Tárcio, a seguir segue a reflexão feita por ele:

O que vemos diante de nossos olhos? A que esta cena conduz a nossa mente e revela ao nosso coração? Onde nos inserimos neste ato teatral? Será que nos vemos na mãe, no filho ou em ambos?

Estas são perguntas que talvez nunca nos fizemos, mas a tenhamos vivido. Sim! Vivido, experimentado. A dor é companheira de todos nós, desde o nascimento até a morte. E costumamos, nestes momentos, indagar: onde estava Deus na minha dor? Quando, na verdade, deveríamos nos perguntar: onde eu buscava Deus na ocasião da minha dor?

Esta cena, que aqui se revela diante dos nossos olhos, jamais fará justiça ao tamanho da dor experimentada naquele momento, por mais que tentemos revivê-la em nossa mente. Até mesmo o Cristo, em sua vida terrena, experimentou a dor. Assim como jó, Jesus sente 3 dores: a da família, dos amigos e a do corpo.

A primeira dor é sentida por Jesus em sua apresentação no Templo: “Este é destinado a ser causa de queda e de reerguimento de muitos em Israel e a ser sinal de contradição” (Lc 2,34). Tal sinal provoca em Maria uma antecipação do sofrimento que ela também passaria no calvário. A rejeição sofrida por Jesus é sentida no coração por sua mãe: “Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma” (Lc 2,35). Um coração que tudo guarda (cf. Lc 2,19), também é um coração que sangra em silêncio. Ela é a mulher das dores e, ao contrário de nós que expressamos de forma aparente a dor que não se pode ver, a angustia latejava em silêncio no seu coração.

José também sofreu as dores da paternidade, ao ponto de tomar para si a culpa pela gravidez de Maria (cf. Mt 1,18-19), que ocorrera pela ação do Espírito Santo (cf. Mt 1,20; Lc,135). Para proteger sua família, ele leva mãe e filho para o Egito (cf. Mt 2,23-28). Assim, Jesus já sofre as dores de uma dura jornada, da família que saí de sua terra, abandona tudo e, consequentemente, a si mesmos para vencer a morte prematura que cerca o menino Deus.

A segunda dor se revela no abandono dos amigos. Jesus sente a tristeza da alma: “Minha alma está triste até a morte” (Mt 26,38). Todo aquele que passa por algum tipo de angústia ou tristeza deseja ter um amigo que o possa ouvir e estar junto. Jesus, enquanto homem, deseja também estar com os seus nessa hora, justamente aqueles que Ele tinha como amigos: “Já não vos chamo de servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (Jo, 15,15). Tal amizade baseava-se tanto no seguimento dos ensinamentos de Jesus: “Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando” (Jo 15,14), como no amor mútuo que deve imperar entre os amigos: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a própria vida por seus amigos” (Jo, 15,13).

De fato, os discípulos, amigos de Jesus, não foram capazes de compreender a  tristeza, as palavras e a dor de Jesus; a compaixão não foi um sentimento que os tomou por inteiro. Eles deixaram a fraqueza humana, o corpo cansado e suas próprias necessidades físicas os distrair do privilégio de estar na companhia de Jesus: “Não fostes capazes de vigiar nem uma hora comigo? (Mt 26,40) … “Voltou novamente e encontrou os discípulos dormindo, pois, os seus olhos estavam pesados” (Mt 26,43), e adverte: “Agora dormis e descansais?” (Mt 26,45).

A negação de Pedro e o abandono dos discípulos no calvário foram o auge do desamparo humano ao Senhor (cf Lc 22,54-71). Ainda que Pedro O tenha negado, Jesus olha para ele, como relata o evangelista Lucas: “Então o Senhor se voltou e olhou para Pedro” (Lc 22,61). Todavia, não se trata de um olhar de repugnância, mas de restauração para Pedro, que ao derramar um choro amargo (cf. Lc 22,62), arrependido, recebe como que um batismo de purificação.

Imagine Jesus vendo seus discípulos fugindo em sua condenação, como nos narra o evangelista Mateus: “Tudo isso, porém, aconteceu para se cumprir o que está escrito nos profetas. Então todos os discípulos o abandonaram e fugiram” (26,56). Todos o abandonaram. Imagine a solidão sentida por Jesus ao ver que nem os seus estavam ao seu lado, se acovardaram diante da injustiça dos homens, deixando só Aquele que os amou.  

A terceira dor está nos flagelos da condenação. Jesus sentiu na pele toda a barbárie do coração humano, do qual Ele já havia exortado: “é de dentro do coração humano, que saem as más intenções: formicações, roubos, homicídios, adultérios, cobiças, perversidades, fraude, arrogância, inveja, calúnia, orgulho, insensatez” (Mc 7,21-22). E tudo isso Ele sentiu em sua carne no açoite (cf. Jo 19,1; Mt 27,26; Mc 15,15; Lc 23,16) que sofrera dos soldados romanos, em sua coroação de espinhos (cf. Jo 19,2; Mc 15,17; Mt 27,29), nas cusparadas e pancadas (cf. Mc 15,19; Mt 27,30; Jo 19,3) e na crucificação (cf. Jo 19,18; Lc 23,33; Mc 15,24; Mt 27,35).

Tudo isso culmina num grande encontro de dores: Jesus, morto, nos braços de Maria. Um dia Ele esteve em seus braços cheio de vida e alegria. Agora, a felicidade que outrora sentira, abre espaço para a dor de tomar em seus braços o Salvador totalmente impotente, sem vida, sem choro, sem rosto e desfigurado. Um homem que trouxe sobre si os pecados da humanidade agora está inerte sobre os braços de sua mãe. Aquela, que na concepção era uma menina simples e temente a Deus, agora precisa ser uma mulher capaz de exercer o perdão e o amor. Maria perdoa os algozes de seu filho e direciona o seu amor materno à humanidade inteira.

Maria e Jesus, o encontro das dores! No entanto a dor da morte abre as portas para a alegria e a esperança da ressurreição. Sim! A ressurreição. Aí está o verdadeiro sentido e fundamento do encontro das dores de Mãe e filho: a expectativa de que Deus jamais os abandonou, porque tanto Maria quanto Jesus, desde o princípio, sem reservas, se lançaram e descansaram nos braços do Pai.

Pe. Tárcio Rosa Siqueira